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terça-feira, 8 de novembro de 2011

Mundo Vizinho

O moço da Lan House
A moça da padaria
Seu carvalho cabelereiro
Cada dia mais um dia
A cada passo entramos mais
Neste mundo de vizinhos
A cada pão ou boa tarde
É a amizade que caminha
Amizade que não se sabe qual o preço de uma hora
Assim é a vida, assim é a rotina
Que faz morrer a cada dia cabelos no salão
E como salgados na padaria
Assim vamos ficando
Se estragando todo dia
Por descaso da freguesia

Filipe Zander Silva
São Luis (MA)

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Eu e meu amigo morto

Escrevo do cemitério central aqui de Ponta Grossa, sei que passear em um cemitério não é algo muito saudável, mas me deu vontade. Fazia tempo que não via como estava o Tumulo dos meus avos e acho legal andar por aqui, é tudo tão quieto.
Estou aqui, neste frio, lendo o epitáfio dos meus avós. Para completar a cena estou com um livro do Nietsche, Obras Completas, coleção Os pensadores. Estou com calça jeans, que por sinal estava com muitas saudades de usar. Assim como roupa preta, cachecol e tênis. Peso desculpa a Família Rohnelt por estar sentado no tumulo da Zizi. Foi mal, mas era o único com sombra.
Não sei o que escrever, a cena na qual eu me encontro já é bem hilária. Bom, vamos lá. Não vejo nenhum sentido em túmulos nem em cemitérios, acho que isso só serve para conservar uma ilusão. As coisas morrem, mas quem fica não quer perder a dependência psicológica então cria estas coisas. Mas não estou a fim de escrever sobre a morte e sobre as nossas dependências psicológicas.
Pois é, estou aqui, acho que vou embora, tenho que extrair meu siso e acho que vim parar aqui só para enrolar, estou com receio que seja ainda hoje a cirurgia. Mas antes deixe-lhes contar uma coisas legal. Quando meu avô morreu foi a primeira vez que tive um contato próximo com a morte, muito estranho, e só a partir dai que cemitérios passaram a fazer parte do meu roteiro e mais que isso, ter algum significado.  Dês de então, quando vinha ao cemitério, eu e meus pais, eu sempre acendia uma vela para meu avô. Atrás do tumulo da família tinha outro bem baixinho, sem foto, direto no concreto, sem pintura, sem acabamento, parecia ser muito antigo e já estar assim por um bom tempo, então sempre eu acendia uma vela neste tumulo. Este tipo de atitude é muito característica minha, não que eu seja muito bom, mas é que tenho a terrível mania de querer aparecer, mostrando aos outros, através de minhas atitudes, o quanto são egoístas. Sem perceber que ao fazer isso eu provo que sou ainda pior.
Mas o legal é que agora, depois de 4 anos que não vinha aqui, pude ver o tumulo do desconhecido reformado, esta mais alto e tem até piso revestindo. E eu de tão egoísta que sou fiquei muito feliz pelo morto.
Tchau, vou cuidar das minhas coisas, até a próxima. 

Filipe Zander Silva              Ponta Grossa-PR   27/09/2011

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

O primeiro show de uma garota



Ocorreu algo muito singelo, mas muito interessante estes dias atrás. Sai aqui perto de casa para dar uma volta, comprei um sorvete, não sou muito de sorvete, mas estava muito tenso o calor, e estava precisando consumir algo ( essa sensação é muito estranha). Mas continuando. Comprei o sorvete, paguei um real, sabor goiaba, o que eu achei muito barato, se pensar em âmbito de Kibon. Em fim comprei o sorvete e me sentei em uma calçada na entrada de uma casa, de repente escuto uma voz.
Do outro lado da rua tinha um salão de beleza, era um sobrado, e na parte de cima, na varanda, vejo uma menina sentada com um violão, ela deveria ter entre 16 e 18 anos, já era noite, não dava para ver direito, mas era uma menina nova, cabelo castanho, não sei se ela era bonita, dentro do juízo de gosto do Kant ela era bonita, já para os socráticos eu diria que não. Mas eu não estava pensando nisso. Sei que ela me viu, pois ela olhou algumas vezes, provavelmente por vergonha ou curiosidade, não que eu seja modesto, mas é que estava escuro. Bom ela viu que eu estava ali, ela estava sentada em uma cadeira e em um banco, o que eu imagino fosse um livro com letras e partituras, pois sempre estava a olhar. A voz dela era uma voz doce, quase de criança, o que tornou a situação mais fascinante ainda, volto a dizer que para mim foi tudo muito puro. Mas enfim eu estava lá em baixo com meu sorvete e ela lá com seu violão, deu para perceber que ela estava aprendendo, pois ela sempre olhava o caderno e não tinha segurança nas notas, apesar de já tocar bem, ainda mais para mim que como musico sou um ótimo ex-surfista. Foi algo muito legal, pois a primeira musica era um do Zé ramalho que eu adoro. Não lembro o nome agora, mas foi muito legal, eu ali sentado muito tranquilo e ainda escutando Zé Ramalho. Por fim a musica acabou, eu não estava olhando muito para não fazer ela se sentir reprimida, mas pude ver que ela virou a pagina, achei muito legal, pois outra pessoa poderia ter entrado e isso de ela terminar a musica e depois começar outra. A rua deserta deu muito a impressão de uma serenata ao inverso. Até ai já valia, estava de bom tamanho, mas a próxima musica foi ainda melhor, era aquela Não chore mais, a versão do Caetano, eu adoro essa musica, me faz lembrar-se das reuniões com os amigos, tanto em Ponta Grossa, quando nos reuníamos para falar de politica e religião, assim como na faculdade em Maringá quando ficávamos no gramado.
Eu poderia ficar sentado ali neste show particular por muito tempo, mas como o sorvete acabou eu não quis constrange-la, fui embora. Sei que ela percebeu que eu não fiquei indiferente a sua musica, fui embora ao final e foi muito legal, pois ela olhou e fiz um pequeno aceno com a cabeça, o que não sei se deu para ela entender que era um parabéns, pois foi um aceno muito singelo, assim como toda a situação.       

Filipe Zander Silva 
Natal - RN 11/09/2011
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